sábado, 2 de abril de 2011

Minha primeira intervenção pública e solitária na universidade

Meu povo e minha pova,
Mexendo nos meus arquivos do velho e-mail Yahoo, achei o primeiro texto de intervenção pública que eu fiz quando estava na graduação. Entrei na graduação em janeiro de 2004, aos 17 anos, cheia de expectativas com as Ciências Políticas, mas logo a Antropologia roubou a cena, era o que eu mais gostava.
O que me levou tão cedo a universidade foi o contato com o Hip Hop, e foi nos fóruns articulados por esse movimento que passamos a questionar porque era o “Outro” que escrevia a nossa história, e que poderíamos ser nós os protagonistas dessa escrita. Assim como eu, diversos ativistas, estimulados pelo Hip Hop, sem tirar o peso do incentivo familiar, passaram a ocupar os bancos das instituições de ensino superior.
E o que acontece a partir daí? O negócio não era tão simples assim. O método e o rigor acadêmico quebrava as nossas pernas, um tal discurso de distanciamento, cientificidade e neutralidade tentava nos impor sobre o que, como, e do que nós poderíamos falar. Essa merda deu pano pra manga: “Quem disse que eu não posso falar sobre mim? E você professor, se questiona tanto o meu lugar como Hip Hopper que quer falar de Hip Hop, de negra que quer falar de manifestações negras, por que nunca trouxe nenhum texto de intelectuais negros e africanos para contribuir com a nossa formação?”, e no embate eu enumerava os diversos intelectuais negros das Ciências Sociais que eu conhecia e que poderiam estar nas ementas das disciplinas, e concluía que nem o professor falava de um lugar neutro, pois ele, com esta postura, legitimava o lugar do homem branco na universidade.
Eu questionei tanto, fui taxada como segregacionista por montar núcleo de estudantes negros para difundir idéias como o panafricanismo, espalhei textos de intelectuais negros e negras diversos que contribuíam com a construção de conhecimento, resumindo, era mal vista por muitos, só porque eu queria e chamava a quebra de paradigmas. Em 2006, depois de produzir fanzines, debates, chamar reuniões, e do “*** *****” do Peter Fry ir na semana de Ciências Sociais da universidade, cujo o tema era “Reforma Universitária”, para falar que as desigualdades no Brasil não tem cor, e que as cotas instauravam a segregação racial e o conflito nas universidades, comecei a fazer intervenções públicas que pensavam o racismo de uma forma mais estruturante, questionando, no primeiro momento, a epistemologia. Segue o primeiro texto espalhado na praça de alimentação, nas redes sociais e e-mails.


EU ERA A CARNE AGORA SOU A PRÓPRIA NAVALHA

“NÃO FOI SEMPRE DITO QUE PRETO NÃO TEM VEZ ENTÃO, OLHA O CASTELO E NÃO FOI VOCÊ QUEM FEZ CUZÃO, EU SOU IRMÃO DOS MEUS TRUTAS DE BATALHA, EU ERA A CARNE AGORA SOU A PRÓPRIA NAVALHA, TIM TIM UM BRINDE PRA MIM, SOU EXEMPLO DE VITÓRIAS, TRAJETOS E GLÓRIAS” (RACIONAIS MC’S – NEGRO DRAMA).

Sempre quando vejo mais um(a) negro(a) conquistando espaço na universidade, lembro-me desse trecho dos Racionais, é um tapa na cara de “alguém coletivo” que se vê em um lugar hegemônico.
Três séculos e meio de escravidão formal, cento de dezoito anos de liberdade forjada, a abolição não pagou o preço de quase quatro séculos de trabalho forçado, de violência no tronco e de agressão cultural. Nessa corrida de quinhentos e seis anos nos amarraram, tentaram nos impedir a emancipação de 1500 a 1888 e nos colocaram barreiras de 1888 até os dias de hoje. Mas o nosso povo é forte, resiste e vem tentando destruir esse imagem negativa criada pelo homem ocidental, e que durante muito tempo fez com que o negro incorporasse “uma imagem depreciativa de si próprio” (Kabengele Munanga, 2002).
O ambiente acadêmico, com a sua visão de mundo eurocentrada, nos nega o conhecimento de nossa própria história, nega também o direito de falarmos de nós mesmos, e o que predomina é o discurso do homem branco.
Você médico, sabia que a medicina iniciou-se no continente africano? O nome de “pai da medicina” dado ao grego Hipócrates deveria ser dado ao cientista e clínico egípcio Imhontep, que a três mil anos antes de Cristo praticava quase todas as técnicas básicas da medicina(Cunha, 2004).

“O Egito possuía uma ciência médica e farmacológica sistematizada e muito desenvolvida, cujas as recentes descobertas mostram que os cientistas egípcios  tiveram a capacidade de promover cirurgias complexas como as cerebrais, de catarata ou o engessamento de membros como os ossos quebrados, conhecer substancias cicatrizantes e anestésicos. O avanço da medicina foi impulsionado, principalmente, pelo desenvolvimento da técnica de mumificação que consistia em um conjunto de procedimentos químicos e físicos, que visavam a preservação dos corpos, já que o sistema religioso no Egito pregava que, para se alcançar a vida eterna , a alma dos mortos precisavam de um corpo. A mumificação permitiu acesso ao interior do corpo humano e, com isso, os egípcios passaram a conhecer o sistema circulatório, o funcionamento de cada órgão e a relação entre eles”. (Cunha, 2004).

Essas conquistas da medicina egípcia estão registradas nos “papiros médicos” encontrados em sítios arqueológicos no Egito.
Você engenheiro sabia que os conhecimentos matemáticos, a tecnologia de fundição, além de outros conhecimentos científicos na sua área se iniciaram no continente africano? E os créditos mais uma vez são dados aos gregos, como Pitágoras em relação à matemática e geometria.
Você historiador já leu sobre a história da África e de outros continentes escrita por intelectuais africanos? Ou suas leituras são embasadas na visão etnocêntrica do europeu? Já percebeu que passa quatro anos ou mais na universidade estudando a história européia e a sua intervenção no mundo e um semestre somente de história da África? História da África que na maioria das universidades é abordada somente pelo viés da escravidão, aquele velho discurso: “negros foram escravizados na América e no continente africano”. E os valores, a cultura, a organização social e os conhecimentos dos povos do continente africano? Estamos cercados da visão eurocentrada não acha?
E você cientista social, já tentou enxergar a realidade racial brasileira sem ser por um viés positivista, levando em consideração que para resolver problemas construídos em um panorama sócio-histórico não basta dizer que raças não existem?
Bom, espero que essas perguntas tragam uma reflexão, pena que as respostas para as mesmas não são muito positivas.
A mudança depende da intervenção que nós estudantes negros e negras travamos dentro do espaço acadêmico, a mudança de paradigmas se inicia quando colocamos em questão as “verdades absolutas”. Essa mudança esta sendo buscada a algum tempo por intelectuais como: Kabengele Munanga, Abdias Nascimento, Sueli Carneiro, Clóvis Moura, Cheick Anta Diop, Nilma Lino Gomes, Valter Silvério, Petronilha Gonçalves,  entre outros que vem construindo uma ciência anti-racista.
Não entramos na universidade para ouvir e decorar, além de adquirir conhecimento temos a responsabilidade de produzir conhecimento, socializar nossas experiências e contribuir para o progresso da ciência, é necessário questionar o “inquestionável”.
O negro na universidade não pode esquecer o passado ao olhar o presente, nós somos fruto de um passado de relações sociais que determinou muito do que vivemos hoje, e o que fizermos hoje terá reflexo no nosso futuro. Se quisermos continuar contrariando as estatísticas e buscar a igualdade é preciso intervir e colocar em evidencia as verdades escondidas.
Estou em busca de uma epistemologia mais africana!

Jaqueline Lima Santos
Estudante de Ciências Sociais
Militante do movimento HIP HOP
Militante do CENNSP - Coletivo de Estudantes Negros e Negras de São Paulo

Referência Bibliográfica

CUNHA, Lazaro. Contribuição dos povos africanos para o conhecimento cientifico e tecnológico universal. Disponível em:http://www.smec.salvador.ba.gov.br/documentos/contribuicao-povos-africanos.pdf

MUNANGA, Kabengele. Uma Abordagem conceitual das noções de Raça, Racismo, Identidade e Etnia. In: Relações Raciais e Educação: Temas Contemporâneos. Editora EdUFF, Niterói, RJ: 2002: 15-34.

No ultimo semestre, chutei o balde, entreguei meu TCC falando de Hip Hop e fiz a conclusão em forma de rima.

2 comentários:

  1. Realmente, algumas pessoas que perversamente se auto denominam racistas ( velados) merecem "um tapa na cara", a pouco tempo fui aprovada em um concurso público do estado de SP e parece que ver uma negra, jovem, na escolha e na expectativa de ser professora de português "incomoda" percebi, que sou uma estranha por cursar a universidade e passar em um concurso público e ir além ensinar Língua BRASILEIRA! Belo comentário...

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